
Durante décadas, uma infecção simples de garganta foi responsável por mudar o curso da vida de milhares de crianças e adolescentes, deixando marcas que atravessam a idade adulta.
Mesmo com avanços no diagnóstico e no acesso a antibióticos, a febre reumática ainda é um problema relevante de saúde pública no Brasil, onde segue como uma das principais causas de doença cardíaca adquirida na infância.
O que torna esse quadro ainda mais complexo é o seu mecanismo: por ser uma doença autoimune, ela não é desencadeada pela bactéria em si, mas pela resposta do sistema imunológico após uma infecção estreptocócica não tratada corretamente.
Entenda como isso acontece, quais os principais sintomas e como prevenir complicações, além dos tratamentos mais eficientes no artigo a seguir.
A febre reumática é causada por uma resposta inflamatória anormal do sistema imunológico que ocorre após uma infecção de garganta não tratada ou tratada de forma inadequada pela bactéria Streptococcus pyogenes, a mesma responsável pela faringoamigdalite estreptocócica.
Após a infecção, geralmente entre 2 e 4 semanas, o organismo passa a produzir anticorpos para combater a bactéria. No entanto, em algumas pessoas, os anticorpos reagem de forma cruzada com tecidos do próprio corpo, como coração, articulações, pele e sistema nervoso.
Esse mecanismo é conhecido como autoimunidade pós-infecciosa e é o que desencadeia a doença.
A duração da febre reumática pode variar bastante de uma pessoa para outra, tanto dia quanto semanas, dependendo da resposta do organismo.
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Um dos sintomas mais comuns é a artrite migratória, caracterizada por dor, inchaço e vermelhidão nas articulações, principalmente nos joelhos, tornozelos, cotovelos e punhos.
Essas dores costumam “migrar” de uma articulação para outra e melhoram com o uso de anti-inflamatórios. A febre e o mal-estar geral também são frequentes no início do quadro.
Por sua vez, o acometimento do coração (cardite reumática) é uma das manifestações mais graves.
Ela pode causar falta de ar, cansaço aos esforços, dor no peito, palpitações e, em alguns casos, evolução silenciosa, com lesões nas válvulas cardíacas percebidas apenas em exames médicos. Sendo esse um dos sintomas de febre reumática em crianças que pode passar despercebido no início.
Outros sinais possíveis incluem:
O diagnóstico não depende de um único exame. Ele é feito a partir da análise conjunta dos sintomas, do exame físico e de exames laboratoriais, sempre com avaliação médica.
Isso porque o seu surgimento está associado a uma reação do organismo após uma infecção por estreptococos na garganta, e nem sempre ela está mais ativa no momento do diagnóstico. Por isso, se foram identificados esses sintomas são fortes os indícios sobre já ter contraído essa doença autoimune.
Para fazer uma avaliação mais precisa, os médicos utilizam os critérios de Jones, adotados no Brasil e no mundo. Estes critérios consideram sinais clínicos mais característicos, como dor e inflamação nas articulações, inflamação do coração, movimentos involuntários, nódulos sob a pele e manchas na pele.
Também entram na análise sinais como febre, dor articular e alterações em exames de sangue e no eletrocardiograma. A confirmação prévia é feita com exames como o ASLO (Anticorpo antiestreptolisina O), além de hemograma e marcadores inflamatórios, que mostram atividade inflamatória no organismo.
Quando existe suspeita de acometimento cardíaco, o ecocardiograma e o eletrocardiograma são essenciais para avaliar o coração, inclusive em casos sem sintomas claros. É a soma dessas informações que permite confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento correto.
O tratamento tem três objetivos principais: eliminar a bactéria causadora, controlar a inflamação e prevenir novos episódios, especialmente para evitar sequelas da febre reumática (cardíacas). A conduta varia conforme as manifestações apresentadas e deve ser sempre individualizada pelo médico.
O primeiro passo é a erradicação do Streptococcus pyogenes, mesmo que a infecção de garganta já tenha acontecido semanas antes. Para isso, são usados antibióticos à base de penicilina.
Em pessoas com alergia, outras opções podem ser utilizadas. Essa etapa é fundamental para interromper o estímulo imunológico que desencadeia a doença.
Em seguida, o tratamento foca no controle da inflamação e dos sintomas. A artrite reumática costuma responder bem a anti-inflamatórios, que aliviam dor e inchaço nas articulações.
Nos casos com comprometimento cardíaco (cardite), pode ser necessário o uso de corticosteróides, além de acompanhamento rigoroso, pois o coração pode ser afetado de forma silenciosa.
O tratamento com penicilina benzatina tem papel central na chamada profilaxia secundária. Após um episódio de febre reumática, o paciente passa a ter maior risco de recorrência, e cada novo surto aumenta a chance de lesões permanentes no coração.
Para evitar isso, a penicilina benzatina é administrada de forma periódica por via intramuscular, geralmente a cada 21 ou 28 dias, conforme a orientação médica.
A duração da profilaxia varia de acordo com a idade do paciente, o tempo desde o último surto e a presença ou não de comprometimento cardíaco. Em alguns casos, o uso pode se estender por muitos anos ou até a vida adulta.
Apesar de ser um tratamento prolongado, essa estratégia é considerada uma das medidas mais eficazes de saúde pública para reduzir a incidência do problema e as suas complicações.
O sucesso da prevenção depende da adesão rigorosa ao esquema indicado e do acompanhamento médico regular. A interrupção ou atraso das doses compromete a proteção e aumenta o risco de novos episódios.
As complicações têm seu risco aumentado quando o tratamento não é feito ou é tardio, mas também quando há interrupção ou atraso das doses de penicilina benzatina e o paciente apresenta comprometimento cardíaco desde o primeiro surto.
Em resumo, a febre reumática reforça a importância do diagnóstico precoce, especialmente após episódios de dor de garganta de origem bacteriana. O grupo mais vulnerável é formado por crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos, faixa etária em que a infecção é mais frequente e o risco de evolução para complicações é maior.
Identificar e tratar ainda nas fases iniciais faz diferença direta na prevenção de sequelas, principalmente cardíacas. Além disso, o controle depende do seguimento rigoroso das orientações médicas, incluindo o uso correto e contínuo dos medicamentos prescritos.
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